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A desigualdade enfrentada
pelos negros no acesso à cultura

· Cultura,Pesquisas e Estudos,Lazer,Cultura nas Capitais

As estatísticas oficiais deixam claro: no Brasil, os brancos têm mais estudo e renda que os pretos e pardos. Ora, se renda e educação exercem grande influência no acesso à cultura, então a desigualdade vai se refletir também nos números da área, certo? Certo. Entretanto, a tendência não é uniforme para pretos e para pardos e não ocorre em todo tipo de atividade, segundo os resultados colhidos na Cultura nas Capitais, pesquisa feita pela JLeiva com o Datafolha em 12 dos municípios mais populosos do país.

O levantamento ouviu 10.630 pessoas, em 2017. Para classificar a cor/raça, usou a mesma metodologia do IBGE: o próprio entrevistado indica com qual categoria se identifica. Neste texto, será usado também a categoria “negros”, que engloba pretos e pardos.

Brancos e negros

Uma das partes do questionário perguntava se os entrevistados haviam ido a uma série de atividades culturais (14 ao todo) nos 12 meses anteriores. O acesso dos brancos supera o dos negros nas artes mais “consagradas”: museus e exposições, teatro, cinema e, em menor proporção, leitura e concertos. O fosso também é relevante na frequência a feiras de artesanato. Em saraus, shows, apresentações de dança, festas populares e bibliotecas, a diferença é pequena, mas em geral favorável aos brancos. Os negros têm percentuais maiores em videogame, blocos de Carnaval e circo.

Pretos e pardos

Quando se analisam pretos e pardos separadamente, outras nuances aparecem. Na amostra da pesquisa, os entrevistados autodeclarados pretos são, comparativamente, mais jovens e mais escolarizados que os pardos. E vão mais a atividades culturais.

Continua a tendência de brancos irem mais a programas ligados às artes tradicionais: museu, teatro, cinema, concerto – além das feiras de artesanato. Mas a diferença em relação aos pretos diminui em outros casos e chega a se inverter em shows. “Talvez não por acaso, o percentual de negros, em especial dos entrevistados que se declaram pretos, se destaca naquelas atividades em que eles são protagonistas: têm presença importante não só na plateia, mas no palco. É o caso de apresentações musicais, saraus, festas populares, blocos de Carnaval...”, afirma o diretor da JLeiva, João Leiva.

Os pardos são os mais excluídos culturalmente. Só em circo o nível de acesso é maior que o dos pretos – nos demais, fica em patamar similar ou inferior. Em relação aos brancos, alcançam percentual maior apenas em videogame e circo.

Os resultados são fortemente influenciados pela escolaridade e pela renda. Uma análise estatística presente no livro Cultura nas Capitais isola o peso desses fatores e chega à conclusão de que, se as condições fossem iguais, pretos e pardos iriam mais a atividades culturais.

“A maior diferença em favor de pretos e pardos ocorre em eventos de dança, fes­tas populares, shows de música, blocos de carnaval e saraus — manifestações comumente associadas à identidade étnica e que muitas vezes são realizadas de maneira informal, pois dependem de pouca estrutura e financiamento”, escreve o autor da análise, Diego Vega.

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